ALERJ DISCUTE IMPACTOS DA VIOLÊNCIA NA EDUCAÇÃO DE CRIANÇAS E JOVENS
Dados de um estudo conjunto do Instituto Fogo Cruzado, UFF e Unicef mostram que entre 2023 e 2025 foram registradas mais de 2.200 interrupções no funcionamento de escolas no Rio de Janeiro devido à violência.
A Comissão de Trabalho, da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), realizou audiência pública nesta quinta-feira (30/04) para discutir os impactos da violência na educação de crianças e jovens do Rio de Janeiro. No encontro, na sede do Parlamento, o colegiado elencou alguns encaminhamentos para mitigar o problema. São eles: enviar ofício à Secretaria de Estado de Educação (Seeduc) e ao governador pedindo a volta do cargo de inspetor escolar; garantia de recursos para a compra dos alimentos previstos no cardápio alimentar da unidades; inserir na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) recurso para a realização de concursos públicos na área da educação para os próximos anos, e encaminhar ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, a ata da reunião de hoje, com as demandas apresentadas.
“O Estado do Rio há muito tempo vive sob domínio do crime organizado de forma territorial. Há uma relação íntima entre o lucro da criminalidade e o poder bélico que impede o direito de ir e vir, também para aqueles que não moram em áreas de risco. As unidades escolares têm que interromper suas atividades quando há episódios de violência, o que gera um aumento da taxa de abandono escolar. Esta é uma realidade que precisamos enfrentar. A formação dos jovens está diretamente ligada à inserção no mercado de trabalho formal e postos com maior remuneração. E isso se torna mais desafiador para a juventude que não conclui o ensino médio por conta da violência urbana”, disse a deputada Dani Balbi (PC do B), presidente da comissão.
A parlamentar complementou dizendo que há um aumento das tensões no próprio ambiente escolar. “A juventude negra, as mulheres, com aumento da misoginia, encontram um ambiente mais hostil. O Estado é responsável por isso, de forma a criar dificuldades para solucionar as demandas e conflitos relatados pelos diretores”, pontuou.
Números alarmantes
Um estudo intitulado “Educação Sob Cerco”, elaborado em conjunto pelo Instituto Fogo Cruzado, pelo GENI - da Universidade Federal Fluminense (UFF) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), revela que a violência armada se tornou uma barreira estrutural ao acesso à educação: somente em 2022, mais de 4.400 episódios de tiroteios ocorreram no entorno de escolas públicas, afetando diretamente cerca de 1.800 unidades e aproximadamente 800 mil estudantes, quase metade dos alunos da região. Entre os territórios mais impactados, o Complexo da Maré lidera o ranking, com 276 episódios de violência registrados nas proximidades de 45 escolas, número mais de seis vezes superior ao da segunda região mais afetada, a Vila Kennedy. Manguinhos, Rocinha, Jacarezinho e Costa Barros também aparecem entre as áreas com maior incidência de confrontos armados.
Dados mais recentes indicam que o cenário persiste: entre 2023 e julho de 2025, foram registradas mais de 2.200 interrupções no funcionamento de escolas devido à violência. Em um único dia de setembro de 2024, ao menos 27 unidades fecharam as portas por conta de operações policiais e confrontos.
O coordenador regional do Instituto Fogo Cruzado, Carlos Inhanga, ressaltou que o órgão tem pautado seus trabalhos no impacto da violência armada na educação. “A evasão escolar está diretamente ligada à violência que ocorre em determinado lugar. Os dados revelam que crianças de algumas regiões passam por um número maior de episódios de violência, como na Maré ou Complexo da Penha, o que não ocorre em bairros da Zona Sul, por exemplo. O Estado precisa produzir uma política de segurança em torno das escolas para todas as áreas do Rio de Janeiro, para garantir o futuro com direitos humanos básicos e fundamentais”, afirmou.
Violência nas Escolas
A presidente da União Brasileira de Estudantes Secundaristas, Roberta Poullynne, comentou sobre a criação de um novo modelo escolar. “A escola que temos hoje não nos forma criticamente e defendemos a construção de um novo modelo de educação em salas de aula, de forma que combatam as discriminações. Uma escola que não seja uma máquina de autoritarismo e sim para fortalecimento da nossa democracia e de territórios mais seguros”, observou.
A presidente da Associação dos Diretores de Escolas Públicas do Estado do Rio de Janeiro (Aderj), Teresa Pimentel, relatou momentos de violência vividos pelos docentes, dentro das salas de aula. “Todos os dias, recebemos denúncias e reclamações sobre questões de violência na escola. E os diretores não têm apoio do governo para nos ajudar a enfrentar o problema. Precisamos pensar aonde erramos para o nascimento desta violência. É difícil agir quando os responsáveis por alunos têm comportamentos agressivos também”, afirmou.
Coordenador Geral do Núcleo do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação de Nova Iguaçu, Thiago Machado elencou problemas enfrentados pelos estudantes.“Indo para as áreas periféricas de Nova Iguaçu, encontramos as escolas mais precárias, como unidades há 4 meses sem luz elétrica por roubo de cabos. E a Secretaria de Educação está ciente. É uma violência não poder ter aula de forma adequada. E como essa juventude vai disputar o mercado de trabalho nestas condições? Outro ponto é a violência enfrentada pelos alunos dentro de casa e que isso acaba refletindo dentro das salas de aula. Faltam mediadores para PCDs, espaços adequados dentro dos colégios para alunas que são mães e que precisam ficar com os bebês em sala. E tem ainda a violência que nós, profissionais da educação, sofremos por parte do governo, sem a recomposição salarial e o pagamento do piso”, frisou.
Vice-Presidente da União Estadual dos Estudantes do Rio de Janeiro, Juliana Gomes Nunes lembrou que os conflitos armados atingem também os universitários. “A violência não afeta só as escolas, mas também as universidades. Esses jovens que precisam chegar até as salas de aula são prejudicados. Se não garantimos educação para essas pessoas, como vão entrar no mercado de trabalho e ter um futuro?”, questionou.
O Diretor do Colégio Estadual Infante Dom Henrique, José Carlos Madureira, refletiu a respeito do baixo investimento na rede de ensino e as consequências: “O colégio não está localizado em uma área de risco, porque fica em Copacabana, mas muitos dos alunos que lá estudam residem nessas áreas. O que temos hoje na política de segurança em todos os estados é a filosofia da guerra, que prega a eliminação do inimigo. O problema dessa mentalidade é que ela reflete na educação, da seguinte forma: investem mais em política de segurança do que na de educação, e como reflexo temos falta de valorização profissional e de investimentos em equipamentos e manutenção das escolas, necessidade de melhoria nas merendas, entre outros pontos. Educação não é prioridade”.
Estiveram presentes também a diretora técnica pedagógica da Associação Cultural Lanchonete Lanchonete, Elen Ferreira; a representante do Fórum Estadual de Educação do Rio de Janeiro, Andrea Cassa; além de docentes e estudantes do Colégio Infante Dom Henrique.
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