UM CLÁSSICO DA INFÂNCIA CARIOCA: PARQUE SHANGHAI É PATRIMÔNIO HISTÓRICO DO ESTADO POR LEI DA ALERJ
Norma reconhece a importância cultural e afetiva de um dos parques de diversões mais tradicionais do país.
O tradicional Parque Shanghai, no bairro da Penha, é patrimônio histórico e cultural de natureza imaterial do Estado do Rio de Janeiro. A Lei 11.170/26 foi aprovada pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e sancionada pelo Poder Executivo, no último mês de maio, no dia 04/05, e reconhece a importância histórica e afetiva do parque de diversão mais antigo em funcionamento no Brasil, que há mais de um século faz parte da memória de gerações de fluminenses.
Fundado em 1919, em São Paulo, o Parque Shanghai começou como um parque itinerante, percorrendo diferentes cidades e participando de grandes eventos pelo país. Na época, uma das principais atrações era uma luta típica da cultura chinesa chamada “Telequete”, inspiração que deu origem ao nome “Shanghai”.
Em 1934, o parque chegou ao Rio de Janeiro e se instalou na região do antigo Aterro do Calabouço, área hoje ocupada pelo Aeroporto Santos Dumont. Com a expansão do terminal aeroportuário, o espaço precisou ser desocupado e, em 1940, foi transferido para a Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão.
Já em 1966, o Parque Shanghai ganhou endereço definitivo, aos pés da tradicional Igreja da Penha, onde permanece até hoje como um dos espaços de lazer mais conhecidos da Zona Norte carioca.
Reconhecimento histórico
O reconhecimento aprovado pela Alerj reforça a relevância cultural do parque para o estado. Atualmente, o Shanghai ocupa uma área de mais de 17 mil metros quadrados, recebe cerca de seis mil visitantes por semana e conta com 28 atrações e sete salões de festas.
A deputada Marina do MST (PT), coautora do projeto, explicou que a iniciativa surgiu a partir da importância histórica e social do Parque Shanghai para o povo fluminense. “A cultura e o lazer são direitos fundamentais do nosso povo. O Parque Shanghai, além de ser o parque de diversões em funcionamento mais antigo do Brasil, é um símbolo histórico do subúrbio carioca e da classe trabalhadora. Garantir sua defesa como Patrimônio Cultural Imaterial é defender o direito à cidade e à preservação de um espaço que acolhe famílias fluminenses há mais de um século”, afirmou a parlamentar.
Ela também destacou a importância do reconhecimento para preservar a memória do parque e evitar que espaços históricos do subúrbio sejam esquecidos. “Transformar o parque em patrimônio é protegê-lo do esquecimento que atinge grande parte dos espaços históricos do subúrbio fluminense. Esse reconhecimento ajuda a preservar a trajetória de resistência do parque, que já enfrentou despejos e mudanças forçadas ao longo da história”, declarou.
Memórias que atravessam gerações
Ao longo de mais de um século de funcionamento, o Parque Shanghai se tornou parte da infância e da história de milhares de famílias fluminenses. O local mantém viva uma memória afetiva passada de pais para filhos e segue como uma referência de lazer para diferentes gerações.
A designer Renata Peres, 45 anos, lembra que os passeios ao parque faziam parte da rotina da família durante a infância. “Meu pai levava eu e minha irmã para brincar no parque quando tínhamos cerca de dez anos. Nossos brinquedos preferidos eram a Xícara Maluca e o Dragão Chinês. O mais legal era que você pagava um único ingresso, com um valor acessível, e podia aproveitar todos os brinquedos”, relembrou.
Para Renata, o reconhecimento do Shanghai como patrimônio histórico e cultural ajuda a preservar não apenas o espaço físico, mas também as lembranças construídas ali ao longo das décadas. “Essa lei é muito importante para manter viva a memória do parque e garantir a preservação desse patrimônio afetivo e cultural. Mas, além da proteção, o local também precisa ser valorizado e receber investimentos para continuar funcionando e atraindo novas gerações”, afirmou.
A professora Débora Tavares, 53 anos, também guarda lembranças da infância no parque. Moradora da Zona Norte, ela conta que o Shanghai era um dos passeios mais esperados da família nos fins de semana. “Os nossos pais sempre levavam eu e meus irmãos ao parque. Era uma alegria enorme, a gente brincava em todos os brinquedos”, disse.
Anos depois, Débora voltou ao local acompanhada da filha e reviveu parte dessas memórias. “Foi muito especial poder levá-la nos mesmos brinquedos em que eu brincava quando criança. E o mais curioso é que a minha mãe também frequentava o parque na infância. É um lugar que atravessa gerações da nossa família”, completou.
Um retrato da cultura carioca
Além de ser um ponto tradicional de diversão, o parque também ganhou espaço no audiovisual. O Shanghai já foi cenário de novelas, filmes, séries, documentários, ensaios fotográficos e clipes musicais, reforçando sua presença no imaginário popular carioca.
“Acho que o principal valor histórico do Parque Shanghai são as memórias criadas ali ao longo de gerações. O carinho que o povo carioca tem pelo parque vem muito das histórias e dos momentos vividos naquele espaço. A gente recebe relatos de pessoas que dizem que uma das únicas lembranças que têm do pai, por exemplo, é justamente dele levando os filhos ao parque, porque isso fazia parte da rotina da família”, afirma o sócio do parque, Bernardo Waller.
“Mais do que diversão, muitas vezes o parque de diversões é o primeiro acesso à cultura que uma pessoa tem e, em alguns casos, é o único. Por isso, o nosso desafio é manter essa tradição viva, levando o parque para cada vez mais pessoas, sem perder a essência do Shanghai”, reiterou Waller.
Ainda de acordo com Waller, o objetivo é equilibrar tradição e modernidade. “A gente quer preservar essa brincadeira raiz, esse espaço afetivo que atravessa gerações, onde hoje um pai leva o filho no mesmo brinquedo em que brincava com o avô. Ao mesmo tempo, buscamos modernizar o parque, trazendo novas atrações, eventos e experiências para continuar encantando um público que tem um carinho enorme pelo Shanghai”, completou.
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