EMPREENDEDORISMO FEMININO AVANÇA NO ESTADO EM MEIO ÀS MÚLTIPLAS JORNADAS QUE DESAFIAM MULHERES
A participação feminina representa 40% do total de empreendedores fluminenses, mas mulheres ainda relatam os desafios de conciliar o próprio negócio com outras responsabilidades da rotina.
Dividir o dia entre reuniões, clientes, tarefas domésticas, filhos e, em alguns casos, um emprego com carteira assinada faz parte da rotina de muitas mulheres empreendedoras. Apesar dos desafios para equilibrar múltiplas jornadas, o empreendedorismo feminino segue em expansão no estado. Segundo levantamento do Sebrae Rio, as mulheres representam 40% dos empreendedores fluminenses. O avanço também se reflete na abertura de novos empreendimentos: entre janeiro e maio de 2026, a Junta Comercial do Estado do Rio de Janeiro (Jucerja) registrou 8.830 negócios liderados por mulheres.
Embora os números indiquem uma busca por maior equilíbrio entre gêneros no empreendedorismo, mulheres seguem esbarrando nas dificuldades diárias de conciliar as múltiplas jornadas. É o caso da Marcelly Silvério, de 35 anos, empreendedora no ramo de semijoias na Baixada Fluminense. Ela conta que, entre idas e vindas, empreende desde os 18 anos, e a maior motivação foi ter mais tempo para ficar com a família e os dois filhos.
“Como meu negócio é on-line, eu consigo estar perto dos meus filhos. No começo não vem lucro e temos que dar o nosso suor, mas esse processo também gera muitas dúvidas, frustrações e ansiedade, já que não temos a certeza de que vai dar certo”, conta Marcelly.
Para ela, a rede de apoio é fundamental para conciliar o empreendedorismo com a maternidade. “Muitas das vezes as mães entram nesse ramo por não terem uma ajuda familiar. Então, dependendo do empreendimento, elas conseguem ficar mais tempo com os filhos. Isso faz muita diferença para quem precisa trabalhar. Se eu não tivesse apoio, não conseguiria fazer muita coisa”, explica.
Do escritório ao próprio negócio
Quando o expediente termina, o sonho empreendedor continua para a contadora Kelly de Souza, de 30 anos. Ela atua na área desde 2020, mas, neste ano, decidiu dar um passo na vida profissional ao abrir o próprio negócio e oferecer serviços de contabilidade de forma autônoma. A profissional relata que são inúmeros os desafios para conciliar a rotina com o emprego formal, mas o principal deles é acreditar em si mesma.
“Nós, mulheres, temos o costume de sermos muito críticas com nós mesmas, e empreender acaba sendo um processo de autoconfiança. Sempre imaginei que, para começar, tinha que existir o cenário perfeito e todos os recursos disponíveis. Até que eu virei a chave e decidi começar com o que eu tinha e da forma que eu conseguia. No caminho, estou aperfeiçoando, até porque muitas coisas só acontecem quando você, de fato, coloca a mão na massa”, desabafa Kelly.
Ainda segundo ela, além dos desafios relacionados à gestão de tempo e autocobrança, mulheres ainda esbarram nas expectativas sociais, uma barreira que torna a trajetória mais desafiadora que a de homens que também empreendem.
“Durante esse processo de empreender, eu vejo diferenças bem claras entre mulheres e homens. A mulher abraça mais responsabilidades ao conciliar outras jornadas, diferente do homem, que tem mais autonomia para lidar com seu negócio sem lidar com outras tarefas. Além disso, ele é visto com muito mais autoridade nesse meio. Em um ambiente, a mulher sempre precisa encontrar formas de ser levada a sério. É como se você tivesse que performar 100% o tempo todo”, explica Kelly.
Legislações que fortalecem o empreendedorismo feminino
Os desafios relatados pelas empreendedoras são temas que a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) já debateu. As leis aprovadas pelo Parlamento buscam ampliar a participação feminina no mercado de trabalho e o incentivo à autonomia financeira, além do fortalecimento de negócios liderados por mulheres.
Uma delas é a Lei 11.199/26, que cria uma política voltada à ampliação da participação feminina no mercado de trabalho e promoção da igualdade de oportunidades entre os gêneros. As diretrizes estabelecem programas de capacitação profissional voltados para mulheres, iniciativas para a participação feminina em cargos de liderança e em espaços de decisão, além de medidas para prevenir e combater a discriminação e o assédio moram ou sexual no ambiente de trabalho, bem como políticas que favoreçam a conciliação entre vida profissional e familiar.
Já a Lei 9.303/21 vem para fortalecer mulheres que abrem seus próprios negócios ao prever medidas de apoio e estímulo ao empreendedorismo feminino. Para isso, a legislação conta com promoção de capacitação e formação de mulheres, cooperação e interação entre os entes públicos e o setor empresarial, além da manutenção e expansão dos empreendimentos, o incentivo ao empreendedorismo feminino de micro e pequeno porte e a facilitação do acesso dessas mulheres a linhas de crédito.
As histórias de Marcelly e Kelly mostram que empreender vai além de ganhar uma fonte de renda extra: significa dar um passo maior em busca da autonomia profissional e autoconfiança feminina, pilares que se sustentam com apoio e políticas públicas voltadas às mulheres a curto e longo prazo. “Daqui a uns cinco a dez anos, meu objetivo é me dedicar 100% ao empreendedorismo e flexibilizar minha rotina para conseguir conciliar áreas da vida pessoal que pretendo construir”, conclui Kelly.
ENVIE POR E-MAIL
Os campos que contém
são de preenchimento obrigatório.
