UM SENHOR PALÁCIO CADA VEZ MAIS FEMININO: MULHERES SÃO MAIORIA EM FUNÇÕES NA SEDE HISTÓRICA DA ALERJ
À frente em diversos departamentos, elas ocupam 90% dos profissionais do espaço e vivem o legado deixado por mulheres emblemáticas e precursoras na luta pela presença feminina na sociedade e nas instituições públicas.
Quem visita o Palácio Tiradentes, sede histórica da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), não imagina um detalhe que permeia os corredores e bastidores do centenário prédio: hoje, cerca de 90% dos profissionais que mantêm o espaço funcionando são mulheres. Elas estão à frente em áreas como departamento de cultura, segurança, brigada de incêndio, operação dos elevadores, administração, biblioteca, serviços gerais e departamento médico. Foi nesse mesmo lugar que, no passado, mulheres emblemáticas atuaram na luta pela presença feminina nos espaços de debate e, hoje, outras vozes protagonizam um senhor Palácio cada vez mais feminino.
Esse protagonismo representa mais do que um dado estatístico. Isso porque existiu uma época em que muitas mulheres não possuíam cargos de liderança na sociedade, especialmente em instituições públicas, espaços que eram predominantemente ocupados por homens. Ter majoritariamente mulheres à frente do Palácio Tiradentes significa subir um importante degrau da extensa escada construída por figuras que marcaram a política e o exercício da cidadania nacional e fluminense.
Legado do passado no presente
No rol dos nomes emblemáticos e atuantes pelo direito ao voto feminino está o de Almerinda Gama, fundadora e representante do Sindicato dos Datilógrafos e Taquígrafos do Distrito Federal. Em 1933, a sindicalista foi indicada como delegada na votação que escolheu os representantes classistas na Assembleia Nacional Constituinte que elaboraria uma nova Constituição para o Brasil, promulgada no Palácio Tiradentes em 1934.
Mais de 90 anos depois, Heloísa Santos é uma das protagonistas que atua nesse mesmo espaço. Historiadora, ela integra a equipe de visita guiada do Palácio Tiradentes e conta que o trabalho conduzido hoje é uma realização pessoal da criança que também foi espectadora das histórias contadas no passeio.
“Falar do legado do Palácio é uma honra, especialmente sobre as mulheres. Nós temos um forte apagamento da presença feminina na história, mas durante a visita conseguimos mudar isso. Quando falamos de uma mulher, não a trazemos apenas sob a perspectiva de uma folha de papel que foi escrita, mas colocamos a sociedade em contato com essa mulher e o que ela viveu”, explica Heloísa.
A historiadora também afirma que o trabalho realizado por ela e a equipe durante os passeios vai além de narrar fatos. “Mais do que falar do impacto das mulheres aqui no Palácio, nós procuramos viver de maneira a honrar esse legado, e um grande exemplo é a Almerinda Gama. Quando mostramos a foto dela sentada no plenário lutando pelo direito ao voto feminino, nós trazemos o sentimento e patrimônio afetivo de que essa luta aconteceu aqui e ela precisa continuar”, destaca Heloísa.
Vozes femininas na luta pela igualdade
Na inauguração do Palácio Tiradentes, em 1926, as mulheres ainda não tinham direito ao voto popular. Foi apenas em 1932 que esse direito foi concedido a elas através do decreto assinado na hoje sede histórica da Alerj, que naquela época era a sede oficial da Câmara dos Deputados, e incorporado à Constituição em 1934.
Além de Almerinda, outros nomes atuaram para a emancipação das mulheres, como Bertha Lutz, bióloga, educadora e líder sufragista que defendeu igualdade salarial, licença maternidade e redução de jornada de trabalho. Outra figura que lutou por esse pleito foi Leolinda Figueiredo Daltro, professora e indigenista que liderou uma passeata exigindo a extensão do direito ao voto às mulheres. Hoje, a Alerj conta com o Diploma Mulher Cidadã Leolinda de Figueiredo, que agracia mulheres que lutam pela garantia da cidadania feminina.
Na defesa dos direitos das mulheres negras, a ex-deputada Jurema Batista foi figura atuante nesse cenário e criou na Alerj o Disque Discriminações, um serviço para receber denúncias e conscientizar sobre a existência de uma política de ações afirmativas no Estado. A ex-parlamentar foi a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira no Parlamento
Há três anos trabalhando na administração do Palácio, Michelle Mello diz que é um privilégio ocupar um espaço histórico e atuar profissionalmente, prática que não era comum para diversas mulheres no passado. “Cada vez mais percebemos que as mulheres estão trabalhando. Antes, nós éramos condicionadas a pensar que nosso lugar era dentro de casa em atividades domésticas. Estar aqui é mostrar que não só homens podem alcançar bons cargos, nós também somos capazes. E a consequência disso é influenciar mais mulheres a lutarem por algo melhor”, relata Michelle.
A memória que o centenário Palácio Tiradentes hoje abriga teve participação de muitas mãos, e muitas delas foram de mulheres combativas que desafiaram o tempo e ampliaram os espaços de participação feminina para alcançar e impactar uma geração de novas vozes. “O Palácio está sendo cuidado, na sua preservação de memória e patrimônio, mas também no cotidiano por meio de uma representatividade feminina em diversas áreas”, salienta Fernanda Figueiredo, diretora de Cultura da sede histórica do Parlamento fluminense.
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