DO CHILE À MARÉ: CAMERATA UERÊ E HARPISTA CHILENO ENCANTAM PÚBLICO NO PALÁCIO TIRADENTES
Apresentação do XXI RioHarpFestival reuniu diferentes gerações e culturas em uma noite de música, inclusão social e intercâmbio de conhecimentos.
Os acordes da harpa chilena e a música dos jovens do Complexo da Maré aproximaram diferentes culturas e gerações no Palácio Tiradentes. A sede histórica da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) recebeu, na noite de sexta-feira (18/09), o harpista Christian Rodrigues e a Camerata Uerê para uma apresentação marcada pela troca de experiências, pela inclusão social e pela participação do público.
Realizado no Plenário Barbosa Lima Sobrinho, o concerto gratuito integrou a versão latino-americana do XXI RioHarpFestival e a programação da I Semana de Arte do Rio de Janeiro. Christian Rodrigues abriu a noite com quatro músicas da cultura chilena, levando ao público ritmos e sonoridades de seu país.
Na sequência, foi a vez de a Camerata Uerê brindar o público. Sob a regência do maestro Jonathan Jordan, 14 jovens, com idades entre 13 e 22 anos, apresentaram um repertório que transitou entre o erudito e o popular. O programa reuniu obras de Heitor Villa-Lobos e canções consagradas como “Anunciação”, de Alceu Valença; “Carinhoso”, de Pixinguinha; e “Maria, Maria”, de Milton Nascimento e Fernando Brant.
A interação deu um tom ainda mais especial ao encontro. Convidado a participar, o público acompanhou as músicas com palmas e cantou alguns dos sucessos. Ao fim da apresentação, os músicos foram aplaudidos de pé.
Palácio centenário aberto à cultura
O curador do Palácio Tiradentes, Leonardo Guimarães, destacou o simbolismo de receber o evento no ano em que o edifício histórico completa cem anos.
“É uma emoção e uma honra receber um evento que une jovens da comunidade da Maré a um harpista internacional. É um encontro que reúne o clássico, o erudito e o popular e, ao mesmo tempo, aproxima o público da música de qualidade e da história do Palácio Tiradentes”, afirmou.
Para o curador, a apresentação também reforçou a vocação cultural do espaço. “A música é uma ferramenta de inclusão social e intercâmbio cultural. Experiências como essa valorizam a trajetória desses jovens e mostram que o Palácio é também um lugar de arte, cultura e convivência”, acrescentou.
Intercâmbio que ultrapassa fronteiras
Convidado especial da programação, Christian Rodrigues ressaltou a importância da troca de conhecimentos proporcionada pelo encontro com os jovens da Camerata Uerê.
“A música cria pontes entre países, culturas e gerações. Encontros como este permitem compartilhar conhecimentos e conhecer outras formas de expressão. Todos aprendem e ensinam ao mesmo tempo”, declarou o harpista chileno.
O Festival Latino-Americano de Harpas celebra a diversidade e a riqueza musical do continente por meio de um de seus instrumentos mais tradicionais. Ao reunir músicos e grupos de diferentes países, a iniciativa promove o encontro entre repertórios, culturas e sonoridades que atravessam fronteiras.
Música que transforma trajetórias
Criada em 2013 pela violinista francesa Constance Depretz, a Camerata Uerê integra o Projeto Uerê, iniciativa voltada à educação e ao atendimento de crianças e jovens afetados pela violência. Atualmente, o projeto atende 270 crianças no Complexo de Favelas da Maré. Mais de 130 mil crianças de diferentes cidades brasileiras já tiveram contato com a Pedagogia Uerê-Mello.
A presidente e fundadora do projeto, Yvonne Bezerra de Mello, ressaltou que a experiência foi além da apresentação musical.
“Esses jovens tiveram a oportunidade de se apresentar e conhecer o Palácio Tiradentes, um ícone do Rio de Janeiro. A convivência com artistas estrangeiros proporciona um enriquecimento mútuo. A música não tem fronteiras”, disse.
Essa transformação faz parte da história de Rodrigo Moreira, de 27 anos, que chegou ao Projeto Uerê aos 19. Para ele, a arte se tornou parte essencial de sua identidade e de seus projetos de vida.
“A música representa tudo para mim. Hoje, percebo que não existe o Rodrigo sem a música. Ela mudou a minha vida”, contou.
Festival reúne artistas de mais de 20 países
O RioHarpFestival faz parte do projeto Música no Museu, reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Cidade do Rio de Janeiro. Em sua 21ª edição, a iniciativa reúne cerca de 150 músicos e grupos vocais de mais de 20 países.
O criador e diretor do Música no Museu e do RioHarpFestival, Sergio da Costa e Silva, destacou o compromisso da iniciativa com a democratização do acesso à cultura.
“Queremos promover encontros entre jovens de projetos sociais e músicos de diferentes países. Essa troca amplia conhecimentos, revela a força da música latino-americana e ajuda a popularizar instrumentos como a harpa”, explicou.
Entre acordes chilenos e canções brasileiras, a apresentação mostrou que a música pode aproximar diferentes realidades, ocupar espaços históricos e abrir novos caminhos para jovens talentos. No ano de seu centenário, o Palácio Tiradentes reafirmou sua vocação como espaço aberto à cultura, à inclusão e ao encontro entre a história e as novas gerações.
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