O CÂNCER DE MAMA, A LUTA CONTRA A DOENÇA E O RESGATE DA AUTOESTIMA
Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima que o Brasil deve registrar cerca de 78,6 mil novos casos de câncer de mama por ano, entre 2026 e 2028.
“Não deixo que ninguém apague o meu brilho”. A frase é da costureira Vânia Silva Nepomuceno, de 48 anos, que, desde maio, enfrenta uma batalha contra o câncer de mama. Em julho, se tornou paciente do Instituto Nacional do Câncer (Inca). Vânia sempre fez mamografia regularmente e, no início deste ano, começou a sentir fisgadas muito fortes na região da mama esquerda e percebeu um nódulo ao apalpar. Após os exames médicos, recebeu a notícia de que estava com câncer.
“Eu estou indo para a sexta sessão de quimioterapia. Tenho que completar oito. Na primeira vez, eu passei muito mal. É um remédio muito forte que entra no organismo da gente. Mas, depois, comecei a me sentir melhor. Após o ciclo das quimioterapias, vou precisar fazer a cirurgia e eu espero que seja em dezembro”, conta.
Vânia perdeu os cabelos ao longo do tratamento e tem usado perucas no dia a dia. Para ela, a peruca fortalece a autoestima, que fica abalada ao longo do processo. “Para mim, me dá força e me mantém firme quando eu me olho no espelho. Eu me preparei antes dos meus cabelos começarem a cair e comprei duas perucas. E aqui, no INCAVoluntário, eu também ganhei uma”, diz.
Com otimismo, ela aconselha outras mulheres que também estão enfrentando o câncer a seguirem o tratamento indicado pelo médico e viverem com qualidade. “Comer bem, beber bastante água, evitar o estresse. Conversar com pessoas próximas, explicar como você se sente, como é a doença. Ter por perto gente que agregue. E não deixar que ninguém apague o seu brilho”, afirma.
INCAvoluntário e a doação de cabelos
O INCAvoluntário é a área de ações sociais do Instituto Nacional de Câncer (Inca), dedicada a promover acolhimento, apoio e qualidade de vida para pacientes em tratamento oncológico e seus familiares. Por meio da mobilização de voluntários, da captação de recursos e do desenvolvimento de programas socioassistenciais, a instituição complementa o cuidado oferecido pelo Inca, contribuindo para a redução das vulnerabilidades sociais que impactam o tratamento. Com uma atuação pautada pela solidariedade, transparência e compromisso com a saúde pública, o INCAvoluntário conecta pessoas, empresas e organizações em prol de uma causa que transforma vidas diariamente.
A coordenadora de desenvolvimento institucional do INCAvoluntário, Bruna Rodrigues, explica como a peruca chega até as pacientes. “Temos uma parceria com a ONG Cabelegria, que faz a confecção das perucas. Aqui nós recebemos a mecha, temos uma urna onde as pessoas podem fazer a doação. E tem empresas que também doam perucas sintéticas para nós”, explica.
Para saber como doar a mecha, Bruna conta que a orientação é que a pessoa entre no site da Cabelegria, para ver todos os detalhes do processo. “Quando nos procuram perguntando sobre a doação, nós pedimos para acessar o site da Cabelegria. Depois, a pessoa pode vir até a sede do INCAvoluntário e deixar a mechinha. E entregamos um certificado para o doador”, conta.
Ela complementa explicando como fazer para se tornar um voluntário. “As nossas inscrições abrem em momentos específicos do ano. Teremos uma abertura para novas inscrições provavelmente após o carnaval. As pessoas entram no nosso site, que é o incavoluntario.com.br, preenchem os dados cadastrais e passam por alguns processos, como entrevista com a equipe, treinamento e aí, de fato, o trabalho é iniciado”, explica.
Para fazer doações financeiras à instituição, a pessoa também encontra todo o passo a passo no site. O mesmo vale para doações de materiais. Basta entrar em contato tanto pelo site, quanto pelo Instagram (@incavoluntario).
Solidariedade e apoio no Norte Fluminense
Há 10 anos, em Campos dos Goytacazes, o Instituto Sawanna cuida e acolhe pacientes com câncer, doenças raras, degenerativas e dentro do espectro autista. O instituto nasceu a partir da maior dor do mundo: a partida de um filho. Lena Souza, fundadora do espaço, perdeu a filha, Sawanna, após a luta contra o câncer. “Descobrimos a doença quando ela tinha 5 anos e com 7 ela faleceu”, conta.
O local conta com uma equipe multidisciplinar para acompanhar os pacientes e seus familiares. "Temos um espaço com dez salas funcionando com essas profissionais e, em cada data comemorativa, como o Outubro Rosa, nós fazemos um evento”, diz.
O instituto, entre tantas atividades, também realiza a doação de perucas para as mulheres em tratamento contra o câncer. “A doação de próteses capilares para mulheres acometidas pelo câncer vai muito além da aparência: é uma forma de resgatar a autoestima, devolver a confiança e proporcionar acolhimento em um momento tão delicado”, fala Lena.
A médica mastologista e chefe do serviço de mastologia do Hospital São Vicente de Paulo, Juliana Murteira, também reforça que o uso de próteses capilares para as mulheres pode facilitar a rotina e permitir que a paciente escolha quando e como deseja expor sua condição de saúde, contribuindo para seu bem-estar emocional e social. "A queda dos cabelos é um dos efeitos mais visíveis do tratamento e pode afetar a forma como a paciente se percebe e se relaciona socialmente. A doação de cabelos e a confecção de perucas ajudam a preservar a identidade, a privacidade e a sensação de normalidade durante um período de muitas mudanças”, afirma.
Além das doações, o Instituto Sawanna realiza, todos os anos, um evento especial do Outubro Rosa, com um desfile protagonizado por mulheres celebrando sua força e beleza. “Também convidamos uma médica oncologista para falar sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama. Nosso objetivo é cuidar, acolher e mostrar a cada mulher que ela não está sozinha nessa caminhada”, ressalta.
Um novo começo
Assistida pelo instituto Sawanna, a gerente geral Karine Marinho descobriu um câncer de mama aos 30 anos. “Em meio à pandemia, descobri um caroço na minha axila. Inicialmente, o médico que realizou meu exame afirmou que não era nada demais, apenas uma inflamação. Mas algo dentro de mim dizia que eu precisava investigar mais. Pouco tempo depois, veio o resultado: um tumor classificado como BI-RADS 4. Com a realização de outros exames, a confirmação que mudaria minha vida para sempre: eu estava com câncer de mama HER2 positivo, com um tumor de quase 10 centímetros, que comprometia grande parte da minha mama esquerda, além de acometimento dos linfonodos da axila e suspeita de comprometimento do fígado”, lembra.
Karine procurou um oncologista e começou a batalha. Foram 17 sessões de quimioterapia, 22 sessões de radioterapia e uma adenomastectomia. “Eu era casada, tinha dois filhos e vivia uma fase em que me sentia feliz e realizada com minha família, minha casa e tudo o que havia construído. Meus filhos eram minha maior razão para continuar”, conta.
Ao longo do tratamento, ela passou por diversas intercorrências e, no momento em que mais precisava do apoio e acolhimento do marido, foi abandonada por ele. “Em plena pandemia, quando eu estava internada e somente ele podia me acompanhar, muitas vezes me deixava sozinha no quarto para assistir a jogos de futebol em casa ou ir à academia. Uma das cenas que jamais esquecerei aconteceu dentro do hospital. Eu estava com os braços cheios de medicamentos sendo administrados pela veia, prestes a ser internada, quando ouvi dele uma frase que me marcou profundamente: que Deus o livrasse daquela desgraça, porque ele era muito novo para viver tudo aquilo”, recorda.
Mesmo lidando com todas as dificuldades do tratamento e deixada pelo ex-companheiro, Karine enxergou que a vida era muito maior e mais importante do que aquele relacionamento. “Decidi que não ter aquela pessoa ao meu lado não significava que eu não conseguiria seguir em frente. Passei a enxergar aquela separação como um livramento e compreendi que precisava escolher a mim mesma, pela minha saúde, pelos meus filhos e pelo futuro que ainda desejava viver. E foi isso que fiz. Segui, lutei e venci”, afirma.
Hoje, aos 36 anos, depois de uma longa jornada e considerada curada, ela celebra a vida e a vitória de ter chegado até aqui. "Quero que outras mulheres saibam que o câncer não tira seu valor, sua beleza ou sua dignidade. Quero que elas entendam que podem sentir medo, chorar, se fragilizar e, ainda assim, encontrar forças para continuar. Também quero que compreendam que merecem amor, respeito e cuidado, especialmente nos momentos em que estão mais vulneráveis”, finaliza.
Diagnóstico e tratamento
O Inca estima que o Brasil deve registrar cerca de 78,6 mil novos casos de câncer de mama por ano, entre 2026 e 2028. No Estado do Rio de Janeiro, são estimados 10.360 novos casos de Câncer de Mama, para cada ano desse triênio. Esse é o tipo de câncer mais frequente entre as mulheres, segundo o Instituto.
De acordo com Juliana Murteira, o câncer de mama pode não apresentar sintomas nas fases iniciais, por isso o rastreamento é tão importante. “Quando existem sinais, os mais comuns são nódulo endurecido na mama ou axila, alterações no formato ou tamanho da mama, mudanças na pele, como retração ou aspecto de 'casca de laranja', alterações no mamilo e, em alguns casos, saída espontânea de secreção, principalmente sanguinolenta. A maioria das alterações nas mamas não é câncer, mas qualquer mudança nova ou persistente deve ser avaliada por um mastologista” alerta.
A médica também destaca que hoje fala-se em autoconhecimento das mamas, e não em autoexame. A mulher deve conhecer suas mamas e procurar atendimento diante de qualquer alteração. “Porém, não devemos esperar o aparecimento de sintomas: o rastreamento deve ser realizado mesmo em mulheres sem alterações”, afirma.
Juliana ressalta que a mamografia é o principal exame para o rastreamento do câncer de mama e pode detectar alterações muito pequenas, antes mesmo de serem percebidas ao toque.
“Quando há alguma alteração suspeita, a investigação pode incluir mamografia diagnóstica, ultrassonografia e, quando necessário, biópsia, que é o exame que confirma ou não o diagnóstico de câncer. A idade para iniciar o rastreamento varia conforme a diretriz e o risco individual. As sociedades médicas recomendam, para mulheres de risco habitual, mamografia anual a partir dos 40 anos. No SUS, a recomendação atual é o rastreamento entre 50 e 74 anos, a cada dois anos, embora a legislação federal assegure o acesso à mamografia na rede pública a partir dos 40 anos, mediante avaliação médica. Mulheres de alto risco, como aquelas com histórico familiar importante ou mutações genéticas conhecidas, podem precisar iniciar o acompanhamento mais precocemente”, diz.
O tratamento é individualizado e depende do tipo e do tamanho do tumor, do estágio da doença, do comprometimento dos linfonodos e das características biológicas do câncer. Pode envolver cirurgia, radioterapia, quimioterapia, hormonioterapia, terapia-alvo e imunoterapia, isoladamente ou em combinação. “Em alguns casos, o tratamento sistêmico é realizado antes da cirurgia, o chamado tratamento neoadjuvante, podendo reduzir o tumor e permitir uma cirurgia mais conservadora. A cirurgia pode preservar a mama ou envolver a mastectomia, dependendo das características da doença e da paciente. O diagnóstico precoce aumenta as possibilidades de tratamentos menos extensos e, em muitos casos, de preservação da mama”, relata a médica.
Juliana lembra que há fatores de risco que contribuem para o surgimento do câncer, como idade, histórico familiar, alterações genéticas hereditárias e fatores hormonais. Também estão relacionados ao aumento do risco o excesso de peso, o sedentarismo, o consumo de bebidas alcoólicas e o tabagismo. “A prática de atividade física, a manutenção do peso adequado e a redução do consumo de álcool podem contribuir para diminuir o risco. É importante lembrar que ter um fator de risco não significa necessariamente desenvolver câncer de mama”, conclui.
Legislações em prol da saúde feminina
A Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) reafirma o seu compromisso com a população fluminense por meio de leis que promovem a conscientização, o acesso à informação e o fortalecimento das políticas públicas de saúde.
Já é lei a prioridade para mulheres de 40 a 69 anos na realização de mamografia em toda rede pública ou privada do estado (Lei 8.713/20). Essa legislação também se aplica a mulheres que, independentemente da idade, apresentem histórico familiar de Câncer de Mama ou Nódulos, conforme diagnóstico médico.
Também é lei no Estado do Rio a afixação de cartazes, nas dependências das unidades do SUS e conveniadas, informando sobre o direito garantido às mulheres mastectomizadas para realização de cirurgia plástica de reconstrução e micro pigmentação dos mamilos e fisioterapia de reabilitação (Lei 10.496/24).
E aprovada pelo Parlamento, a Lei 10.955/25 determina a presença de fisioterapeutas com qualificação ou experiência comprovada em oncologia nos estabelecimentos que oferecem tratamento contra o câncer.
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