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12.06.2018 - 16:45 Por Leon Lucius

PATRIMÔNIO MUNDIAL, CAIS DO VALONGO MOSTRA HISTÓRIA E DESCASO PÚBLICO

  • Por Octacílio Barbosa
    Foto geral da reunião


Durante audiência, grupo criticou gestão da Prefeitura do Rio e pediu criação de museu nacional

Sujo, escuro e desprotegido. É assim que o antropólogo Milton Guran define o estado do Cais do Valongo, Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e a Cultura (Unesco) desde julho de 2017. O local, que fica na Zona Portuária da capital, foi o maior porto de comércio escravocrata do mundo e, atualmente, encontra-se sob administração da prefeitura do Rio. O tema foi pauta de uma audiência pública da Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) realizada nesta terça-feira (12/06).

“Moradores de rua dormem e fazem suas necessidades biológicas lá dentro, além dos transeuntes que jogam até latas de cerveja. Não é possível que a administração municipal veja essa conquista com tanto desprezo. Se isso continuar assim, perderemos a titulação e o patrimônio em si”, criticou Guran, um dos autores do documento que pleiteou a candidatura ao título da Unesco. Ele defendeu a criação, no local, de um museu nacional que reconte a história do povo africano na construção do Brasil, proposta que foi apoiada pelo restante dos participantes. A ideia já havia sido cogitada na década de 1990, quando Nelson Mandela visitou o país pela primeira vez.

Sem querer “atropelar” o Executivo municipal, o presidente da comissão, deputado Zaqueu Teixeira (PSD), defendeu uma atuação da Casa ao promover aulas públicas sobre a região portuária. “Levaremos ao presidente da Alerj a proposta de realizar um roteiro, com a comissão de Educação e o Departamento de Cultura, para fazer esse resgate histórico e esses espaços serem valorizados”, declarou sobre a ideia do deputado Waldeck Carneiro (PT).

Desde janeiro, a Lei estadual 7.851/18 autoriza o Executivo estadual a criar o Museu Afrobrasileiro na capital. A audiência pública aconteceu, inclusive, no dia seguinte à concessão da Medalha Tiradentes ao rei de Ifé e líder do povo iorubá, na Nigéria, Ooni Adeyeye Enitan Ogunwusi, o Ojaja ll. Estiveram presentes os deputados Eliomar Coelho (PSol) e Waldeck Carneiro (PT).

História e educação

O Cais do Valongo pertence a uma série de locais da Zona Portuária e bairros adjacentes que mostram, de alguma forma, o impacto do povo negro na formação da cidade e, consequentemente, do país. O “circuito” conhecido como Pequena África é composto, por exemplo, pela comunidade remanescente do Quilombo Pedra do Sal e é defendido pela guia e historiadora Luana Ferreira, 29, como um espaço não formal de educação.

Ela contou que existem educadores dispostos a integrar os alunos a esses locais cheios de história, mas encontram obstáculos financeiros e religiosos. “Não há orçamento para livros paradidáticos e a ideia de uma visita é rechaçada pelas secretarias e pelas direções dos colégios”, contou Luana, citando casos em que o passeio era visto pejorativamente como “macumba”.

Essas dificuldades também alcançam o Instituto Pretos Novos, que desde o ano passado não recebe orçamento do governo para para promover, com alunos de escolas públicas, um circuito turístico gratuito sobre a herança africana.

Presente na audiência, a assessora do subsecretário de Educação, Denise Corecha Rosa Alves, disse que há 20 anos já enfrentava o preconceito ao tratar a herança africana nas escolas. “Infelizmente, essas coisas não mudam”, disse. “É lamentável que professores não consigam cumprir o seu papel, que é educar”, solidarizou-se e afirmou que as demandas serão encaminhadas ao secretário Wagner Victer.

Reforma na Zona Portuária

No aquecimento para grandes eventos mundiais, como a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, a Zona Portuária da cidade foi repaginada como parte do projeto bilionário conhecido como Porto Maravilha, cujo objetivo é melhorar as condições de infraestrutura da área para atrair novos moradores.

Como parte deste investimento, foram criados o Museu de Arte do Rio e o Museu do Amanhã, espaços criticados por não abordarem a história da diáspora africana. Em resposta, a Agência Pública criou, em 2017, o “Museu do Ontem”, um aplicativo interativo que apresenta um roteiro turístico da região com base na história dos povos africanos que não é contada em espaços formais de entretenimento e cultura da Zona Portuária.

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