ELERJ ENCERRA PRIMEIRA EDIÇÃO DO 'MULHERES EM REDE' COM LUIZA BRUNET COMO MADRINHA DO PROJETO
Encontro promovido pela Escola do Legislativo debateu violência doméstica, autonomia financeira, saúde e autoestima das mulheres.
A Escola do Legislativo (Elerj) da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) encerrou, nesta quinta-feira (22/10), a primeira edição do projeto “Mulheres em Rede”, iniciativa permanente voltada à discussão sobre direitos, cidadania e políticas públicas para as mulheres. Realizado no segundo andar do Edifício Lúcio Costa, sede do Parlamento Fluminense, o encontro reuniu especialistas para debater os desafios relacionados à saúde, à autoestima e à autonomia feminina, além de oferecer serviços de cuidados pessoais às participantes. A atriz, empresária e ativista pelos direitos das mulheres Luiza Brunet participou do debate e foi anunciada como madrinha do projeto, que terá novas edições.
Responsável pela abertura do encontro, o diretor-geral da Alerj, Edinaldo Basilio, mencionou sua trajetória profissional e acadêmica na instituição. Servidor da Assembleia e pós-graduado pela Elerj, ele ressaltou a importância da formação oferecida pela escola e o compromisso de contribuir para o desenvolvimento profissional de outros servidores.
“Estar aqui tem um significado especial para mim. Antes de assumir, recentemente, a Direção-Geral, eu sou quadro da Casa. Fui formado aqui, cresci aqui, fiz a pós-graduação aqui em 2018 e isso me emociona bastante. Retornar a esse espaço na condição de diretor-geral é motivo de muito orgulho e, sobretudo, de muita responsabilidade. É olhar para uma instituição que faz parte da minha trajetória e compreender que agora eu tenho a missão de contribuir para que ela continue transformando a trajetória de outras pessoas”, disse.
Ao abordar os objetivos do “Mulheres em Rede”, Basilio ressaltou que a iniciativa amplia o papel da Escola do Legislativo como espaço de produção de conhecimento e transformação social. Segundo ele, questões como o enfrentamento à violência, a garantia de direitos, a saúde, a autoestima e a autonomia feminina devem integrar permanentemente as discussões institucionais e a formulação de políticas públicas.
“Esses são temas que não podem ser tratados apenas em datas comemorativas ou em momentos específicos do ano. É preciso ser um operador disso no dia a dia. São temas que precisam estar plenamente presentes nas nossas instituições, nas políticas públicas e nas nossas atitudes. A Assembleia é a Casa onde são discutidas, construídas e aprovadas leis que impactam diretamente na vida da população, portanto, quando abrimos as portas para discutir os direitos das mulheres, estamos reafirmando a responsabilidade do Poder Legislativo na promoção da igualdade, na prevenção da violência e construção de uma sociedade mais justa e fraterna”, pontuou.
O diretor-geral também defendeu a participação dos homens no enfrentamento à violência de gênero, ressaltando que a construção de relações mais respeitosas e igualitárias é uma responsabilidade compartilhada por toda a sociedade.
Saúde, autoestima e autonomia financeira
A terceira e última mesa de debates do projeto abordou a relação entre o autocuidado, a independência financeira e a capacidade das mulheres de romper ciclos de violência. Na abertura, a jornalista Marieta Meirelles, responsável pela mediação, apresentou dados sobre a violência contra mulheres e meninas no Estado do Rio e destacou que a dependência econômica pode representar um obstáculo para aquelas que desejam denunciar seus agressores e deixar relacionamentos abusivos.
“Por trás dos números existem histórias. Já falamos sobre proteção, prevenção e enfrentamento. Reconhecemos sinais de violência, barreiras à denúncia, dentre elas a dependência financeira. Porque a mulher pensa nos filhos, no aluguel, na comida e, muitas vezes, o que prende a mulher a denunciar e romper essa barreira não é a porta, mas a conta”, disse.
Com mais de uma década de experiência à frente da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), a delegada Giselle do Espírito Santo chamou a atenção para as formas de violência que antecedem as agressões físicas. Segundo ela, comportamentos de controle e ciúme podem ser confundidos com demonstrações de afeto, dificultando o reconhecimento de relacionamentos abusivos e a busca por ajuda.
“Muitas vezes a gente só identifica a violência depois da agressão. A dinâmica do relacionamento é naturalizada na sociedade e a gente nem percebe mecanismos de controle, ciúmes e acha que é atenção ou cuidado. Quando a violência vai escalando a esse ponto, a mulher está enfraquecida, por isso a necessidade das redes de apoio”, explicou a delegada.
Um dos momentos do encontro foi o relato pessoal de Luiza Brunet, que compartilhou sua experiência como vítima de violência doméstica. A atriz e ativista abordou os impactos físicos e emocionais das agressões e destacou como a vergonha, associada à desvalorização da mulher pelo agressor, pode dificultar a denúncia e o rompimento do ciclo de violência.
“Para mim, a ponta do iceberg é a violência doméstica, porque ela deixa a mulher frágil e danificada. Eu me lembro que, no dia em que eu sofri violência doméstica, enquanto ele me agrediu fisicamente a ponto de fraturar quatro costelas, me agrediu verbalmente de várias formas, falando o quanto eu não valia mais nada na sociedade, que eu já tinha sido uma mulher bonita, jovem e desejada e que eu estava ultrapassada. No momento em que uma mulher é agredida, ela é violada de todas as formas possíveis”, relatou Luíza.
A autonomia financeira também foi apontada como um dos fatores fundamentais para que mulheres possam tomar decisões sobre suas próprias vidas. A especialista em finanças Amanda Pessoa apresentou um panorama histórico das restrições impostas às mulheres no acesso ao trabalho, ao crédito e à administração de recursos, relacionando essas desigualdades à dependência econômica que ainda afeta muitas vítimas de violência doméstica.
“A gente precisa começar a entender que o senso comum de que a mulher não sabe lidar com o dinheiro foi construído. No Código Civil de 1916 a gente era classificada como capaz, foi só em 1962, no Estatuto da Mulher Casada, que a gente consegue trabalhar e abrir uma conta-corrente sem a autorização do marido. Só em 1974 a gente vai ter acesso a crédito realmente. Essas conquistas ainda são recentes para que a gente consiga ver esses efeitos diretos na sociedade. A intenção é nos manter sob controle e a melhor forma disso é o controle financeiro. Sem ele somos dependentes”, explicou a especialista em finanças.
A relação entre saúde, autoestima e informação também esteve presente nas discussões. A médica Mônica Travassos, da Sociedade Brasileira de Mastologia, abordou os impactos emocionais do diagnóstico de câncer, especialmente diante das mudanças físicas provocadas pelo tratamento. Ela destacou a importância do acolhimento e do fortalecimento da autoestima para que as pacientes possam enfrentar a doença sem que sua identidade e seu valor pessoal sejam definidos por padrões estéticos.
“O desconhecido causa medo e leva a pensar esteticamente sobre a perda de cabelo. Essa é uma estigmatização que a mulher carrega pensando que não vai ser mais desejada. ‘Quem sou eu se não tiver mais cabelo, com um câncer. Quem vai me querer como pessoa?’ Aí vem a coisa mais importante. Quando você descobre, você tem a si mesma. E você tem que perdurar para levantar a voz”, ressaltou a médica.
Encerrando as discussões, o ginecologista Nilson Batista, do Departamento Médico da Alerj, reforçou a importância do acesso à informação e do acompanhamento médico para a identificação precoce de doenças. O especialista alertou para os casos de câncer de mama diagnosticados em estágios avançados e defendeu que as ações de conscientização e os cuidados com a saúde feminina sejam mantidos durante todo o ano.
“Eu vejo pacientes com 35 anos e câncer avançado de mama. Isso me entristece porque o rastreio foi feito tardiamente. A prevenção deve acontecer o ano inteiro e por isso essa rede de apoio, cuidado e informação é tão importante”, finalizou o médico.
Cuidados e bem-estar
Além das palestras, o encerramento do “Mulheres em Rede” contou com atividades voltadas à saúde e ao bem-estar das participantes. A equipe do Departamento Médico da Alerj ofereceu serviços de aferição de pressão arterial e glicemia. As mulheres também tiveram acesso a sessões de massagem, aplicação de cílios e atividades de automaquiagem, complementando a programação dedicada ao autocuidado e à valorização da autoestima feminina.
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